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As bolas foram trocadas bem na sua frente

“A democracia é uma forma de governo que prevê a livre discussão, mas que só é atingida se as pessoas pararem de falar.” (Clement Atlee)

Por Wender Carbonari*

Desde quando foi instaurada a democracia no Brasil, de fato, ela não foi efetiva. Já nos primeiros anos de nossa República, a figura do coronel que abusava dos poderes políticos e criava mecanismos para coagir os votos de seus funcionários era comum no país. Faz tempo isso. Se você não matou muitas aulas de história para fumar atrás da quadra, provavelmente deve ter estudado sobre esse período.

Em outras ocasiões, o De Rolé fez críticas a Mato Grosso do Sul afirmando, sem muita base e pesquisa, que este é um estado sem leis, ou proveniente da lei da “bala”. Há quem diga que “não, existe um ‘judiciário’ competente aqui”. Este é um blog otimista e sonhador, mas não tão ingênuo.

Na semana passada, o site Mídia Max News divulgou um vídeo no qual mostra o governador do Estado, André Puccinelli (PMDB), fazendo uma “chamada” com os servidores da Secretaria de Estado de Trabalho e Assistência Social – Setas – no qual o chefe do executivo estadual, claramente, induz os trabalhadores a dizerem que vão votar nos candidatos que possuem seu apoio.

Tem algumas reportagens bem sacanas sobre isso. Só digitar no Google para achar. No site Campo Grande News, por exemplo, um texto assinado por Nicholas Vasconcelos mostra o quanto é organizado e abrangente o coronelismo do governador. O site não informa, de primeira, o que fez André. O primeiro parágrafo diz assim: “A Justiça Eleitoral decidiu pelo arquivamento de denúncia sobre o vídeo com suposta coação de servidores públicos por parte do governador André Puccinelli (PMDB) durante reunião”.

“Suposta coação” senhor jornalista? As bolas foram trocadas bem na sua frente, querido leitor. A reportagem medíocre e medrosa do principal site de Campo Grande é um exemplo da extensão do poder da principal figura política do Estado. A cobertura fraca sobre um caso sério (para não dizer seríssimo), joga na cara de todos que moram neste Estado que a imprensa “come” na mão de quem está por cima.

Partindo desta situação preocupante, a figura de “4º Poder” ou de “cão de guarda” do interesse público cai por terra. Mais claro: não existe jornalismo em Mato Grosso do Sul. O chefe do Estado dá uma de “coronel” e quase TODOS os veículos de comunicação, coincidentemente, ignoram esse crime ou começam o texto pela defesa.

A Justiça Eleitoral coloca na gaveta o processo. Não é difícil ouvir comentários de que o servidor deve ser fiel ao “patrão”. Sendo assim, eleição no Brasil é uma piada. Não há a possibilidade de construir uma opinião consistente em relação à situação política de uma região com formadores de opinião que tenham opiniões vendidas. O que tem boa imagem, é, simplesmente, aquele que tem maior influência. Candidatos a prefeitos e vereadores não se preocupam em discutir propostas de governo, mas sim com a quantidade de placas vagabundas que vão colocar nos canteiros centrais da cidade.

Se os veículos da Capital (nem todos, mas a maioria) se calaram diante de tal situação, os jornais do interior fizeram exatamente o mesmo. Tem editor chefe de veículo de Dourados que conversa com a boca no pé da orelha do chefe do executivo estadual.

Tudo bem. Vai ter pessoas da imprensa que vai dizer que publicou alguma coisinha no site ou uma reportagenzinha no jornal para se defender. O problema é que o jornalista (principalmente aqueles com mais experiência) tem a “manha” de fazer um texto e um título que chama mais ou menos atenção. A abordagem e as palavras também influenciam o que o leitor vai pensar sobre o fato apresentado. Não se trata de manipulação, exatamente. É um processo constante de escolha durante a elaboração do material.

Em qualquer país dito democrático no mundo, uma atitude desta de André seria capa de todos os jornais. Já passou e isso não foi “capa”, não virou conversa de buteco, não causou revolta na maioria dos cidadãos sul-mato-grossenses. Bem provável que este comentário também não chame a atenção.

Não é de hoje que trocam a prioridade pelo supérfluo. Não é de hoje que escolhem o que vamos pensar como quem escolhe o que vamos comer e o quanto vamos pagar. Não é de hoje que escolhem quem vamos condenar. Não é de hoje que escolhem em quem vamos votar.

*Estudante de Comunicação Social com habilitação em jornalismo.

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Categorias:JORNAL DEROLÉ Tags:,
  1. Marina
    setembro 1, 2012 às 4:49 pm

    Excelente crítica. Parabéns

  2. Dharana
    abril 29, 2013 às 8:47 pm

    Parabéns, vc escreve muito bem! Os meios de comunicação precisam de jornalistas corajosos como vc…

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