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Vai vê era o frio do ar-condicionado

por Wender Carbonari*

 

É o primeiro mês de trabalho de Jorge Groua, conhecido em seu bairro como Luque. Aos poucos está se acostumando com a rotina de segurança em uma loja do shopping center, no qual faz parte de suas funções a de abordar as pessoas flagradas pelo incômodo sinal emitido pelo detector de furto. Em poucos dias notou que a loja roupas de grife em que presta o serviço de segurança anota poucos casos de roubo. A região tem bom policiamento e os clientes são das mais altas classes sociais.

 

O trabalho não é cansativo, apenas entediante, e o salário não é dos piores, principalmente para quem não conseguiu concluir o ensino fundamental, como é o caso do suburbano, Jorge Groua. A mulher dele faz faxinas em casas de bairro nobre. Tem três filhos na faixa de dois a 17 anos. Luque tem 39 anos, 16 deles dedicado a uma firma de tratores que acabara de colocá-lo no “olho da rua” da pior maneira possível. Por estar em meio a um processo no qual responde por furto e desvio de caixa, ainda não recebeu da empresa tratorista a quantia que lhe seria justa pelo tempo de serviço e nem mesmo o salário dos últimos dois meses em que trabalhou sob olhares desconfiados dos colegas.

 

O amigo indicou este trampo de segurança e ele aceitou, claro. Já está devendo para familiares. Já está racionando a carne no mercado. Já cancelou a festa de aniversário do filho mais novo. Luque nega ter cometido qualquer delito contra a empresa e, se levar em conta suas condições de vida, não faz o menor sentido ser condenado pela lavagem de dinheiro na faixa de 250 mil ao ano. Ele não tem a mínima ideia de como abrir uma conta poupança em um “paraíso fiscal”, mas também não sabe quem possa ter feito. Em quanto o pesadelo não termina, o agora segurança tem que se virar.

 

Luque sempre teve um defeito seriíssimo para tempos como este. Ele acredita nas pessoas.

 

Como não tem nada para fazer, alem de cuidar quem entre e quem sai, notou também  que o ar-condicionado está sempre abaixo dos 18°. A tarde na loja é parecida com a mesma dos outros dias. O mesmo teste de paciência, o mesmo café doce de mais, as mesmas informações prestadas aos perdidos, as conversas sobre futebol com o funcionário mala da loja vizinha, as mesmas pernas que olhava tentando ser discreto. Aquela chatice diária.

 

Como se já não tivesse problemas o bastante para ocupar sua cabeça, passa em sua frente – entre os limites do detector de furto – duas pessoas diferentes: uma mulher de uns 30 anos, cabelo liso, perfume enjoado, salto alto que emitia um som arrogante de “ploqui ploqui ploqui” com o andar. Ao lado da madame passava um jovem de cerca de 22 anos, com tênis, boné e mochila nas costas. Era office boy e passou ali, provavelmente, para pagar uma conta para os patrões.

 

O sinal do detector deu sinal de alerta. Isso acontece quando alguém tenta passar com alguma peça de roupa na qual possuiu um pequeno chip anexado ao produto. Não acontece muitos furtos ali. Este pequeno “dedo-duro” magnético é retirado no momento da compra. Com o som da máquina, imediatamente o segurança de primeira viagem mandou-os que esperassem. Era a segunda vez que a máquina apitara desde que tinha começado a prestar serviço no novo emprego. Da oura vez havia sido um engano, apenas. Mas hoje a situação parece mais incômoda.

 

Luque pediu que os dois retornassem a loja. Após o pedido feito pelo segurança suburbano, a cliente bem vestida protestou:

 

– O senhor não pense que vai relar a mão na minha bolsa.

 

– Os dois passaram ao mesmo tempo, não posso deixá-la ir sem que mostre o tem aí contigo ou que passe novamente pela porta para verificarmos se foi apenas um engano – respondeu Luque, educadamente.

 

A mulher não perdeu tempo e retrucou:

 

– É óbvio que é um engano. Estou me sentindo constrangida. Mas está bem, fique a vontade para vir aqui e me revistar, mas prometo que em uma semana estará sem emprego – ainda completou a ameaça afirmando que era filha de um promotor de justiça – não encontrará nada aqui e sei os meios de exigir meus direitos nestas situações.

 

O pobre Luque se desesperou com a afirmação, “direitos”, mencionada pela moça dos colares brilhantes e das pulseiras barulhentas. Falou de direitos com tanta certeza. Os direitos dela devem estar bem assegurados. Lembrou que em breve será condenado por roubo, pois, para a juíza, as provas apresentadas pelo advogado da firma de tratores são contundentes. Ele sabe que vai perder, só não sabe o que vai dizer para seu filho de 17 anos, que, inclusive, parece com o office boy que assiste a discussão quieto e com os olhos arregalados.

 

Jorge nunca esteve entre os mais inteligentes da sua classe nos tempos da escola. Sempre se destacou pelo tamanho. Pela habilidade em carregar caixas. Sua aparência não é agradável, mesmo assim conseguiu subir de cargo na empresa de tratores. Os diretores da grande firma já avisavam, “não se pode colocar esse tipo de gente para mexer com assuntos importantes, nem para receber mais que mil reais por mês”. Os diretores alertavam também, “pessoas como esse Jorge ‘não sei de quê’ são gananciosas”.

 

Ele teve um segundo para pensar. Fez o que é certo, pelo menos para quem estava ali. Deixou a mulher ir embora, e a moça dos colares rapidamente sumiu. Logo após o rápido diálogo, o office boy tirou a mochila, retirou as parafernálias que tinha dentro, passou pelo detector. As pessoas na loja faziam silêncio para escutar o apito. Todos atentos. Mas o silêncio persistiu. Luque se sentiu gelado por dentro. Ele era o juiz daquele tribunal. O rapaz não o olhou nos olhos e dava para sentir que ia chorar. Uma senhora de idade protestou dizendo que tinha que olhar a mochila dele direito. O oficce boy foi embora também, sem nem dizer o nome. A atitude do segurança foi aprovada pelos outros clientes. “Não se pode vacilar com esse povo, você é bom no que faz filho, ele podia ter pegado alguma coisa”. Mesmo assim, a sensação fria por dentro continuava e não passou por dias.

 

Surpresa. Uma semana depois Luque foi despedido. Mais uma vez estava desempregado. O gerente disse que precisava reduzir custos, deu as contas em notas de cinquenta e pediu para que o ex-funcionário se retirasse da sala. Tudo que Jorge pensou no momento era que “aquele jovem parecia com o meu filho”. Nem ele entendia porque aquele acontecimento teve um impacto tão grande. Vai ver o maior perigo da vida sejam as pessoas, até porque o frio que sentia no estômago não era do ar-condicionado.

 

 * Estudante de Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo.

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  1. Dharana
    maio 2, 2013 às 6:23 pm

    Nossa, vc tem talento… passou super bem a noção de injustiça… as diferenças que não deveriam existir…

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