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– Então você é neto do Theodorico Viegas?

– Sou. Conheceu?

Theodorico Viegas foi jornalista em Dourados; Criou o jornal 'folha de dourados" em 1968

Theodorico Viegas foi jornalista em Dourados; Criou o jornal ‘folha de dourados” em 1968

– Claro, claro. Conheci ele no final dos anos 60 – abriu um sorriso como se estivesse recordando algo bom.

– Faz tempo em, a cidade devia ser outra.

– É, muita coisa era diferente em alguns aspectos.

A gente nunca sabe quando vai começar uma das melhores conversas da vida. Aquele homem idoso não parecia muito entusiasmado em conversar comigo sobre estes velhos tempos, em que conheceu meu avô. Acredito que isso acontece porque muitos dos jovens não mostram entusiasmo ao escutar o clichê “como era diferente naquela época”.

Mas eu fiquei curioso. Tentei manter um pouco mais o assunto.

– Da onde que o senhor conhecia o meu vô, do jornal?

– Não, o seu avô era uma figura conhecida na cidade, mesmo antes de lançar o “folha de dourados”. Antigamente, nos anos 68, 69, 70, 71, existia um grupo de pessoas em Dourados que se juntavam lá no centro, na praça. Fazia parte seu vô e eu. Era um grupo grande. Toda tarde estávamos alí tomando vinho, fazendo música, conversando sobre o cotidiano, conversando sobre política. Lá ficava, digamos assim, uma elite pensante da cidade na época. Encontravam-se estudantes, professores, artistas, ativistas, jornalistas, políticos de esquerda, em fim, pessoas que tinham uma visão mais crítica do que estava acontecendo no Estado e no mundo. Teu vô era o primeiro a chegar e o último ir embora. Gostava muito dos encontros, de conversar com as pessoas.

A esta altura do que aquele senhor me contava, já havia mais de cem perguntas para fazer. Chamou-me atenção a existência deste grupo que ele objetivava de “pensante”, inclusive, que destas reuniões saíram políticos, jornalistas, professores, ou seja, líderes importantes de Dourados.

Dourados, avenida Marcelino Pires, 1976

Dourados, avenida Marcelino Pires, 1976

Há de se lembrar o quanto era diferente a cidade e do quanto era diferente o processo de aquisição de conhecimento e informação. Antes que eu perguntasse sobre este assunto, aquele senhor declarou:

– Eram alguns dos anos mais intensos da ditadura. Os militares ficavam de olho na gente, sabiam que poderíamos nos tornar uma ameaça. E na verdade éramos mesmo, mas na época nem tínhamos noção disso.

– E Dourados, como estava?

– Atrasado. Só tinha asfalto na Marcelino Pires. Os jornais de São Paulo e Rio de Janeiro chegavam aqui um mês depois de publicado. Agente pegava informação com os caixeiros viajantes para saber o que estava acontecendo em outros lugares.

– E o jornal do Theodorico, sofria pressão?

– Todo mundo sofria pressão. Seu avô tentou diversas vezes impor algumas de suas opiniões, mas se deu mal. Chegou a ser levado para Ponta Porã onde rasparam-lhe a cabeça, devem ter agredido ele também. Tudo porque tinha publicado algo que não “devia”. Manifestou-se, no editorial do jornal, contra a construção do presídio de segurança máxima em Dourados. Disse que a cidade precisava de hospitais e escolas, não podia manifestar opiniões contra o governo de nenhuma forma. Muitos amigos aqui de Dourados foram até Ponta Porã para pedir que soltassem o Viegas, acho que ficou uma semana preso lá.

Depois de alguns minutos conversando sobre a ditadura militar – eu fazendo perguntas e ele mergulhado em lembranças – houve um silêncio. Fiquei pensando um pouco em tudo que havia acabado de escutar. Mas aquele sábio senhor havia me dito algo que, ao fim do papo, me deixou encabulado. Disse que a cidade estava “muito diferente em alguns aspectos”.

– Em que aspeto não é diferente? – cortei o silêncio no carro.

Ele riu. Eu não.

– A luta sempre continua, na medida em que a vida se renova. Não é hora de você entender, mas vai.

Silêncio de novo. Queria uma resposta mais direta. Mais analítica.  Mas desta vez deixei ficar por isso mesmo. Queria ter feito a mesma pergunta para o meu avô, não fiz e não posso fazer mais.

Mudei de assunto e lamentei que havia esquecido uma blusa e na parte da noite a temperatura iria cair.

– Não acredito que esqueci o casaco – falei naquele tom de desespero.

– Não trouxe casaco né. Mas você é novo ainda. Aos poucos a vida vai ensinando, ensinando e ensinando.

E dava para perceber que não se tratava, exatamente, do casaco.

Wender Carbonari, estudante de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo.

Josnalistas recebem premio na Câmara Municipal de Dourados. Theodorico Viegas é o terceiro, contando da esquerda para direita

Jornalistas recebem premio na Câmara Municipal de Dourados; Theodorico Viegas é o terceiro, contando da esquerda para direita

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