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O Romance II – Para um leitor que deseja escrever um romance

Abril de 2007 – revista Caros Amigos

 

Ana Miranda*

 

Dou aulas para autores iniciantes, ou, pelo menos, mais jovens e inexperientes do que eu, quer tenham, ou não, publicado algum livro. Trabalhamos sobre seus textos. Sempre o fundamento é a literatura, ou seja, a expressão artística que tem por meio a palavra. Inicio as aulas com uma ideia que nasceu de minhas observações sobre o ato de escrever, e que é o leitmotiv de todo o curso: não escrevemos o que queremos, escrevemos o que somos. Não há como fugir dessa fatalidade. Todo processo de escrita literária é interior. A palavra é subjetiva, e, por isso mesmo, reveladora. O uso literário da palavra fundamenta-se na razão e na imaginação. Imaginação e memória se confundem.

 

Quando escolhemos um tema sobre o qual escrever, já estamos imprimindo nessa escolha as nossas aptidões, preferências, nossos interesses, aspirações, nossa história, a memória de nossa família, a ancestral, nosso Ser mais amplo. A escolha das palavras a serem usadas, a maneira como dispomos essas palavras, num fluxo movido pelo pensamento, pelas emoções, também são formas de registrarmos o nosso Ser.

 

O mais surpreendente é que, parafraseando Flaubert, podemos nos transformar, cada vez mais, naquilo que almejamos. O itinerário de construção de uma obra literária é o mesmo da construção de um Ser, de uma personalidade. Se não ocorre esse movimento, alguém  não está criando uma obra de literatura. Enquanto a pessoa constrói uma obra, constrói a si mesma. Ou seja, somos o que escrevemos. Você pode transformar uma parte de si mesmo, ou, pelo menos, conduzir seu movimento interior num certo sentido.

 

A leitura, por exemplo, nos transforma. Após lermos um livro, qualquer livro, já não seremos mais a mesma pessoa, seremos a pessoa que éramos e mais a experiência adquirida com a leitura, o que é, também, a experiência de outro Ser registrada por meio de palavras. De maneira quase mágica, nós nos transformamos um pouco naquele outro autor lido, assim como ele se transforma um pouco mais em seus leitores. Quanto mais literário o texto, mais ele se entranha na alma de quem o lê.

Como-fazer-uma-boa-leitura

No processo de criação da obra, escavamos, submergimos, e nos avizinhamos de nossa índole profunda. Quase sempre, prevista, pois a escrita desenvolve nosso instinto de suposição, de predição, da conjetura, da evocação. A escrita é premonitória. Por isso, temos tanto medo de uma folha em branco.

 

*escritora

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