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Se eu não me lembro de você, eu nada lhe posso cobrar

Do livro Reforma política: lições da história recente. Organizadores: Gláucio Ary Dillon Soares, Lucio R. Rennó. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006.

 

No primeiro turno da eleição de 2002, os brasileiros foram às urnas – em uma eleição histórica – votar seis vezes. A eleição presidencial foi vencida pela primeira vez por um candidato de esquerda. Depois de perder três vezes, em 1989, 1994 e em 1998, Lula derrotou o candidato do governo FHC. Junto com ele, foram eleitos 27 governadores, 54 deputados federais e 1.059 deputados estaduais. Dentro da Cabine de votação, diante da urna eletrônica, o eleitor foi convocado a votar seis vezes: duas para senador e uma para cada um dos demais cargos. Quatro anos antes, o número de votos foi apenas um pouco menor: cinco, pois havia somente um voto para o Senado.

O presidente eleito e o candidato governista derrotado eram de partidos já velhos conhecidos do eleitorado: PT e PSDB. Além deles, dois outros partidos apresentaram candidatos a presidente. Ciro foi o candidato do PPS e Garotinho foi candidato do PSB. Um cargo em disputa, poucos candidatos e poucos partidos. Essa não foi a realidade dos outros cargos. Os 27 governadores eleitos se distribuíram por oito partidos diferentes. Os 54 senadores foram eleitos por 10 partidos, ao passo que os 513 deputados federais representaram 19 partidos. Aquele que tentar citar quais foram esses oito, 10 ou 19 partidos provavelmente fracassará em seu intento. O leitor se arrisca?

Se é difícil lembrar o nome de todos os partidos que elegeram governadores em 2002, também deve ser difícil dizer quem foi o candidato escolhido para os cargos de deputado federal e estadual. Você, leitor, lembra em quem votou para deputado federal em 2002? E em 1998? Qual o nome do candidato que mereceu sua escolha? E quanto ao cargo de deputado estadual, quem você escolheu para representá-lo? Não vale consultar anotações em canhotos de comprovação de comparecimento, que em geral são guardados junto ao título de eleitor.

Quem não lembra em quem votou não pode cobrar, não tem como acompanhar o desempenho do seu representante, não vai saber se ele estará cumprindo as promessas feitas, nem se ele é melhor ou pior que os outros políticos. A primeira informação necessária para acompanhar e fiscalizar o trabalho de um representante, sem a qual nada mais pode ser feito, é esta: quem foi nosso escolhido.

No caminho de volta, está o sonho dourado dos políticos pouco atuantes: ser eleito, fazer o que quiser e disputar as eleições seguintes como se fosse sua primeira eleição. Quanto maior a proporção de “eleitores esquecidos”, mais fácil é realizar esses sonho. O pesadelo dos políticos muito atuantes é outra a outra face da moeda. Para aqueles representantes que fazem um bom trabalho e são muito atuantes, quanto maior for o esquecimento do eleitor, maior será o esforço para persuadi-lo a votar em função desse bom trabalho. Em vez do argumento “você que votou em mim há quatro anos vote novamente agora, veja tudo o que eu fiz nesse período para merecer que você repita o voto”, é utilizado simplesmente: “veja como faço muitas coisas, por isso vote em mim”. Está-se diante de uma nova eleição que em nada tem conexão com a anterior.

A súmula é clara. Eleitores que não lembram em quem votaram para deputado não têm os meios para avaliar o trabalho de seus representantes. Do outro lado do balcão, políticos que buscam reeleger-se junto a eleitores esquecidos fazem campanha sempre como se fosse a primeira vez. Para os que pouco ou nada fizeram em quatro anos, nada mal: eleitores esquecidos são mais facilmente tapeados. Para os que fizeram muito, há uma má notícia: a campanha fica mais cara porque o esforço de divulgação tem de ser maior.

Uma democracia só funciona a pleno vapor quando é possível saber se os representantes fizeram – minimamente – aquilo que prometeram aos representados. Quem tem de saber isso é quem escolhe, é o eleitor. A noção inglesa de accountability, que é a faculdade de “responsabilizar alguém acerca de alguma coisa”, só se realiza quando se sabe quem chamou para si a responsabilidade. O esquecimento do voto não permite isso. Para o eleitor esquecido ninguém pode ser responsabilizado por nada, nem pelas coisas boas nem pelas coisas ruins.

Após as eleições de 2002, foi perguntado ao eleitor brasileiro em quem ele tinha votado para cada cargo em disputa. Nas perguntas para os cargos majoritários – presidente, governador e senador -, foram apresentados os nomes dos principais candidatos em cada estado e os nomes dos candidatos a presidente. Foram questões com respostas estimuladas. Nas perguntas sobre deputado federal e estadual, não foi apresentado nenhum nome, ou seja, tratou-se de uma pergunta espontânea. Isso aconteceu porque é muito grande o número de candidatos a deputado, o que inviabiliza completamente a apresentação de uma lista de nomes. As diferenças na maneira de perguntar, combinadas com o peso maior que os eleitores atribuem à eleição presidencial, permitem fixar os dois extremos de um continuum: a maior lembrança, para presidente, e a menor lembrança, para os cargos de deputado.

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