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Esta é uma história irreal.

Por Wender Carbonari, para o jornal De Rolé

Fotojornalista Viviane Moos – Esteve no Rio de Janeiro para documentar a realidade de crianças de rua. Fazem parte do Diário das Ruas do Brasil, livro de Fotografia Dibital Interativa.

Fotojornalista Viviane Moos – Esteve no Rio de Janeiro para documentar a realidade de crianças de rua. Fazem parte do Diário das Ruas do Brasil, livro de Fotografia Dibital Interativa.

– Meu Deus, onde esse mundo vai parar. Estes jovens estão cada vez mais perigosos. É por isso que eu digo que “bandido bom é bandido morto”, se for ‘menor’, melhor. Só antecipa o que já iria acontecer – comentou, na rede social, uma senhora de uns 40 anos, ao ler a chamada de uma notícia na qual informava sobre a apreensão de uma pistola de calibre 38. A arma estava nas mãos de um adolescente de 15 anos, pele morena, cabeça baixa nas imagens publicadas naqueles sites de interior.

Horas antes, ainda no caminho ao trabalho, a mulher havia passado em uma rua em que era possível ver moradores de rua e usuários de drogas dormindo em espumas e papelões jogados por cima de muretas de concreto. Naquele mesmo local, de noite, havia travestis e prostitutas desfilando. Uma zorra. Ela sentia um cheiro horrível sempre que passava lá, mesmo se não estava perto. Uma mistura de fezes e a carniça de um animal morto. Até com o vidro fechado sentia aquele odor. Sempre que via um morador de rua, sentia o mesmo cheiro. De perto ou de longe, não importava. “Como pode todos federem do mesmo jeito?”.  Ela sentia o fedor e sentia ódio.

Certa vez, em entrevista, o cientista político, Carlos Novaes disse que a mídia no Brasil, de forma genérica, possui a editoria policial como carro chefe. Isto porque, há tempos, a própria imprensa se convenceu que o maior problema da sociedade era justamente este, a violência urbana. Então é natural, que fiquem intrigados, incomodados e ameaçados pela violência.

A senhora se sentia assim, invadida, e fez um comentário agressivo. Todos que liam podiam sentir o ódio dela por aquele marginal de uns 40 quilos. Gosta de defender bandido, leva um pra casa? É o que diria aos que ousassem criticá-la. Nunca tinha entrado em uma delegacia, nem levado multa no trânsito, nem usado drogas. Nem ela nem seus filhos. Era uma pessoa de bem e gostava disso. Daquelas que vão a manifestações por paz, mesmo no sábado de manhã, e doa cesta básica naqueles programas em época de natal promovido, normalmente, por igrejas.

Mesmo depois de passar semanas, ela ainda tinha a impressão de sentir aquele odor. Ao lembrar, a raiva dominava seus pensamentos e a pele logo ficava vermelha.

Para aquela senhora do comentário, pobre era pobre porque tinha preguiça. Ladrão era ladrão porque nascia com DNA pra ser vagabundo e viciado tinha que apanhar. “O mundo é injusto”, pensava sempre que assistia o jornal de fim de tarde do Datena. “Por causa da presença destes monstros na terra não podemos ser felizes e livres por completo”, continuava seu raciocínio. Ninguém se manifestou em desfavor ao comentário dela na rede social. A cidade não é tão grande e as pessoas se conhecem. Na verdade, houve outras observações, uma enxurrada de xingamentos e desejos de morte ao menino que havia sido identificado como autor de um assalto a uma padaria há duas semanas. Ele confessou ter usado o dinheiro para comprar crack.

Tornou-se um clichê este tipo de ocorrência, mas uma possível solução estava por vir. A explicação para os problemas como os assaltos e o tráfico é a proximidade com a capital do Estado e o enfraquecimento dos valores familiares, então, o prefeito prometeu aumentar a frota de policiais. O concorrente nas eleições passadas chegou a afirmar que era um problema de saúde pública. Caiu nas pesquisas e perdeu. “Queremos segurança para nossos filhos”, afirmava a propaganda eleitoral do ganhador que garantiu reações em curto prazo. Em três meses, de fato houve um aumento na frota de policiais, operações foram montadas, semanas após semanas de combate, muitos traficantes morreram e muito sangue foi derramado na guerra contra o narcotráfico. Tudo pela paz. Rendeu notas e notícias na imprensa, prêmios e comemorações pelo trabalho bem feito.

Após dois meses, o capitão da polícia militar do batalhão foi entrevistado ao vivo no programa de TV sobre a longa operação. Era hora de exaltar o trabalho realizado por ele e seus companheiros.

– Neste momento, posso afirmar que a cidade está mais segura. Fizemos uma varredura e fechamos 22 bocas de fumo – confirmou a quantidade olhando para um discreto lembrete que estava nas mãos. O respeitado capitão lembrou, ainda, dos casos frequêntes de assalto a mão armada que reduzira 70% em comparação com o mesmo mês do ano passado. Agora, os moradores de rua, travestis, prostitutas de rua e usuários de drogas – os que ficavam misturados aos mesmos sem tetos – tinham desaparecidos junto com as bocas de fumo. O município estava limpo e era exemplo para as vizinhas. Os poucos que se perguntaram sobre o destino daqueles mendigos, dependentes e afins, se calaram. Fingiram que não viram nada.

Claro que a senhora do comentário carregado, e que sofria com aquele cheiro odioso de carniça, em fim se sentia um pouco feliz. A Justiça está feita. O Estado fazia seu papel em favor das pessoas de bem que se sentem presas e cercadas pela maldade suja do mundo. A mídia também fazia sua parte, levando os fatos até a casa dos cidadãos. O cidadão, por fim, se sentia beneficiado. Era até possível imaginar um mundo onde estes poderes tinham, como razão de existir, a garantia do conforto e segurança do povo.

De dentro do carro, a mesma senhora seguia novamente para seu trabalho depois do almoço. Ao passar naquele local onde dormiam os infelizes percebeu, além da ausência deles, que a prefeitura havia refeito a pintura das muretas que eram usadas de cama. Era impossível evitar as lembranças, assim como o que sentia por todos que ficavam ali e tinham aquele espaço como um lar. Após alguns segundos, ela levou um susto e sua felicidade – ou seja lá como queira chamar o que esta mulher sentia – acabou no mesmo instante. Haviam ido embora, todos, mas seus sentimentos continuavam os mesmos.

 

Tudo em vão. O mesmo cheiro podre que entrava por suas narinas parecia ainda mais forte, inconfundível e aterrorizante.

Ela sentia o fedor e sentia ódio. E se sentia ódio o fedor voltava.

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