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Do livro “Hiroxima” de John Hersey

Hiroxima após o ataque americano

Hiroxima protagonizou o maior ataque terrorista da história no dia 6 de agosto de 1945

Nos dias que antecederam imediatamente ao da bomba, o Dr. Masakazu Fujii, sendo um homem próspero, amigo dos prazeres e não muito atarefado. dera-se ao luxo de dormir até as nove ou nove e meia; mas afortunadamente tinha-se levantado cedo, na manhã em que a bomba fora lançada, para acompanhar um hóspede da casa até uma estação ferroviária. Saltou da cama às seis, e meia hora mais tarde caminhava com o amigo para a estação, não muito longe, além de dois dos rios.

Voltou para sua casa às sete, em tempo de ouvir a sirene soar seu aviso contínuo (como o Japão estava em guerra, sirenes de alerta acionados todos os dias às 8h da manhã). Tomou o café e, porque a manhã já estava quente, despiu-se e em trajes menores chegou até a varanda para ler o jornal. Esta varanda, aliás todo o edifício, tinha uma construção curiosa. O Dr. Fujii era proprietário de uma instituição peculiarmente japonesa: um hospital particular com um único médico. Esse edifício, encarapitado sobre a água do rio Kio e próximo da ponte do mesmo nome, tinha trinta quartos para trinta pacientes e seus parentes – porque, de acordo com o costume japonês, quando uma pessoa adoece, um ou mais membros da família vão viver com ele, cozinhar para ele, e dispensar-lhe constante simpatia familiar, sem o que um paciente japonês se sentiria deveras miserável.

O Dr. Fujii não tinha leitos – apenas esteiras de palha – para seus pacientes. Tinha, contudo, todo o tipo de equipamento moderno: raios X, aparelho de diatermia e um ótimo laboratório azulejado. Dois terço da estrutura se apoiavam na terra, um terço em pilares, acima das marés altas do Kio. Essa projeção, a parte onde o Dr. Fujii morava, tinha um aspecto esquisito mas era fresca no verão, e da varanda, que dava acesso ao rio de costas para o centro da cidade, a vista da água e dos barcos subindo e descendo era sempre revigorante. O Dr Fujii tinham ocasionalmente, seus momentos de ansiedade quando o Ota e suas desembocaduras subiam muito, mas os pilares pareciam bastante firmes e a casa sempre resistia.

O Dr. Fujii estava há mais ou menos um mês sem fazer nada. Em julho, quando diminuía o número das cidades japonesas intatas (e, como Hiroxima, pareciam cada vez mais um alvo inevitável), ele começara a mandar embora seus pacientes porque, em caso de um ataque incendiário, não teria como evacuá-los. Restavam agora apenas dois doentes – uma mulher  de Iano, com um ferimento no ombro e um jovem de vinte e cinco anos, recuperando-se de queimaduras sofridas quando uma usina metalúrgica –as proximidades de Hiroxima fora atacada. O Dr Fujii tinha seis enfermeiras para atender os pacientes; sua mulher e um filho estavam vivendo na vizinhança de Osaca, e outro filho e duas filhas estavam vivendo no campo, em Kuiuxu. Uma sobrinha morava com ele, além de uma doméstica e um empregado. Tinha pouco o que fazer mas não se importava com isso, pois havia juntado algum dinheiro. Aos cinquenta anos, era um homem sadio, sociável, calmo, e sentia prazer em passar a noite bebendo uísque com os amigos, sempre delicado em estimular a conversação. Antes da guerra, impressionava-se com as marcas inglesas e americanas; agora estava perfeitamente satisfeito com a melhor marca japonesa, Suntóri.

O Dr. Fujii sentou-se de pernas cruzada, em trajes menores, sobre a esteira imaculada da varanda, pôs os óculos e começou a ler o Asahi de Osaca. Gostava de ler as notícias de Osaca porque sua mulher estava lá.

Viu o fulgor.

Para ele – de costas para o cetro onde  a bomba caiu e olhando seu jornal – pareceu de um amarelo brilhante. Sobressaltado, começou a levantar-se. Nesse momento (estava a 25 quilômetros do centro), o hospital inclinou-se atrás dele, com um ruído medonho de coisa rasgada e tombou no rio. O Dr. Fujii, ainda a frente e em volta e para cima. Foi espancado e agarrado; perdeu a noção de tudo, porque as coisas foram demasiado rápidas; caiu na água.

O Dr. Fujii mal tivera tempo de pensar que estava morrendo, antes de perceber que estava vivo, entalado entre duas pranchas de madeira em V atravessadas em seu peito – como um bocado de comida entre dois enormes pauzinhos – mantidos em pé, de sorte que não que não podia mover-se, com a cabeça milagrosamente acima da água e o torso e as pernas mergulhados. Os destroços de seu hospital estavam todos em volta numa doida variedade de madeiras rachadas e remédios para aliviar as dores. O ombro esquerdo doía-lhe terrivelmente. Os óculos tinham desaparecido.

Exatamente às oito horas e quinze minutos da manhã, a 6 de agosto de 1945, hora do Japão, Hiroxima foi destruída pela primeira bomba atômica do mundo lançada contra outra cidade.

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