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Especial Semana da Mulher: Valmíria, a avó da comunidade indígena

Reportagem publicada há um ano no Dourados News para o Especial Semana da Mulher.

Na época visitei a dona Valmíria, a avó da comunidade indígena, hoje com 70 anos.

Valmiria mora há 69 anos na Reserva Indígena de Dourados - Fotos Wender Carbonari

Valmíria mora há 69 anos na Reserva Indígena de Dourados – Foto: Wender Carbonari

Por Wender Carbonari.

Qualquer pessoa que a visse, mesmo que pela primeira vez, teria de chamá-la de “vó”. Valmíria Rodrigues tem 69 anos, todos vividos na aldeia Bororó em Dourados.

No mesmo pedacinho de terra ela criou cinco filhas, duas delas adotivas. A legítima avó da comunidade indígena tem ainda 21 netos e seis bisnetos.

Dona Valmíria foi convocada por uma das netas para dar entrevista ao Dourados News. Com expressão serena e passos lentos, a avó nos convidou para entrar no quintal, buscou a própria cadeira sem deixar que os mais novos a ajudasse e, mesmo sem saber o motivo da conversa, deixou que reportagem começasse a fazer as perguntas.

Logo, dois dos seus bisnetos nos interromperam para pedir algo. Concentrada, mas com afeição, ela explicou que estava conversando com o ‘rapaz do jornal’. “A vó não pode pegar no colo”, foi a primeira fala dela registrada no gravador. Perguntei logo se eu poderia tirar algumas fotos dela e da residência. “Pode fica a vontade”, disse logo, já se levantando e me conduzindo até o portão dos fundos, onde toda a área é coberta pela sobra das mangueiras, onde o chão é de terra bem batida com um barulho contínuo dos animais no quintal.

O portão que dá acesso à varanda é de lata, os moveis eram simples, mas estava tudo muito bem organizado. Já de início, ela mandou um clichê: “no nosso tempo era diferente, sabe”. Engraçado, nem tinha começado a perguntar e a avó da falava uma frase que resumia a minha pauta. Era mesmo nesse tempo diferente que eu estava interessado. De cara percebi que a dona Valmíria adorava contar histórias.

A avó disse que casou com 19 anos e teve sua primeira filha com 22. Contou algumas histórias felizes do seu tempo de juventude, mas também de tempos difíceis. Afinal, após 12 anos de casamento, o marido de Valmíria foi embora para se casar com outra mulher. Desde os 31 anos ela seguiu sozinha a vida de mãe, de avó e de amiga das pessoas que a procuram.

O que Valmíria tem mais saudade é dos tempos em que não existia a violência exagerada na aldeia. De acordo com a indígena, “naquele tempo” (nos anos 70 até final dos anos 80) as casas na aldeia Bororó eram mais distantes umas das outras, havia menos pessoas, não existia problemas com drogas e por isso, para ela, era um ambiente mais seguro.

A avó demonstrava empolgação em falar de seu tempo. A expressão só mudou quando a pergunta se referia a violência contra a mulher na aldeia. Imediatamente, o assunto lembrou de problemas na própria família que envolve o contato com o abuso do álcool e agressões físicas e verbais contra mulheres próximas dela. Casos de maridos que batem nas esposas na comunidade são comuns, tão comuns que deixa a dona Valmíria triste. Com quase 70 anos de experiência ela espera mais união das mulheres da aldeia.

Foto: Wender Carbonari

Foto: Wender Carbonari

“Tem que ter coragem e conversar com as mais novas. É porque a gente sente bastante, quando uma mulher que você conhece apanha, parece que dói em você também. Junto já é difícil, cada um no canto sofrendo quieto é ainda pior. Nós mulheres devemos nos levantar”, comenta a avó sobre a violência contra as indígenas.

E dona Valmíria parecia mesmo que sentia as dores de seus semelhantes. É nítida a preocupação com o futuro dos jovens. Para ela, a aldeia se tornou um ambiente propício ao envolvimento precoce com o sexo e com as drogas.

“Na aldeia as crianças viram adultas muito cedo. Começam a fuma, começam a beber, começa a participar das festas, começa a sair sozinha. Aí o que a gente mais vê são meninas, as vezes com menos de 12 anos, que acabam grávidas e tem que criar o filho sozinha porque o menino vai embora, ou nem tem condições. Mas é muito cedo. Tem que conversar, porque são só crianças”, lamenta.

Ela afirma ter morado em apenas duas casas ao longo dos 69 anos. A primeira casa foi queimada de maneira criminosa. Era uma das histórias tristes que ela preferiu não me contar e eu respeitei. Valmíria é uma mulher gigante com pouco mais de 1,60 m. Minutos após a entrevista acabar ela já foi em direção a uma roda de tereré. Cumprimentou as pessoas presentes, sorriu, pegou o bisneto no colo e fez brincadeira sobre o peso da neta. “Não que a vida esteja fácil”, comentou ela, “mas prefiro conviver com minha família com paz e a alegria”.

Tinham se passado horas e eu sabia que já devia estar na redação redigindo o texto, mas fiquei um pouco mais para tomar um tereré com as pessoas que me ajudaram a encontrar a casa da dona Valmíria na Aldeia. O vento fazia a poeira levantar obrigando  todos a protegerem os olhos. Na roda de sua família a avó mostrava um comportamento diferente do que teve na hora em que dava entrevista. Fazia brincadeiras e sorria o tempo inteiro, descontraída, diferente do que mostrou as fotos.

Já passava das cinco da tarde e resolvi ir embora. Voltei para redação satisfeito, mas apreensivo. Havia me distraído de tal maneira, durante todo o tempo que passei na casa da avó Valmíria, que ainda não tinha pensado em como transformaria aquilo tudo em uma reportagem para um site jornalístico. Ainda confuso, decidi deixar de lado alguns padrões que são por vezes necessários, mas nos limitam, e comecei a escrever e reescrever.

Após um ano percebo quantas direções poderia ter seguido neste mesmo texto, se fugisse ainda mais desses padrões. Mesmo assim, não me arrependo de ter feito desta maneira.  Eis aí um jornalismo de imprecisão.

(claro que não era esse o final da matéria publicada no Dourados News hahaha)

Versão editada:

http://www.douradosnews.com.br/dourados/especial-semana-da-mulher-valmiria-a-avo-da-comunidade-indigena

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