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Desce pra terra, Pastor

Foto retirada do site DouradosNews

Não é foto. É print do vídeo mesmo

Por Wender Carbonari*

 

O discurso do vereador de Dourados, Pastor Sérgio (PSB), por mais absurdo que pareça para alguns, coloca em cena um discurso que não deixa de ser, em certa medida, popular. Se por um lado a fala dele deixou muita gente indignada, por outro, representou aqueles que defendem a tal “família tradicional”.

 

Pegando emprestado as palavras do internauta ‘martinsbnr’, em comentário no site de notícias DouradosNews (link aqui), percebe-se estas contradições. Ele afirma que “Os héteros são obrigados a aguentar tudo”, enquanto “eles [GLS, GLBTS, GLBT, LGBT, entre outras categorias] podem falar o que quiser”.  Muito convicto em seus ideais, o internauta conclui:

 

“Concordo com o vereador: acho que todos tem direito de viver como quiserem, mas as pessoas tem o direito de achar isso anormal e falar que é anormal. Um dia, os normais serão os anormais. Um dia, não. Acho que já estão sendo…”

 

Apesar de estar concordando com o vereador, suas palavras jogadas na rede não foram tão inúteis assim. Pois sim, as pessoas deveriam ter o direito de viver como quisessem, mas não vivem principalmente por causa da falta de bom senso de pessoas como o próprio vereador no qual ele apoiou no comentário. Assim, notamos que quem sempre bateu na mesa e enfiou guela abaixo valores, verdades e ideias, não foram os pequenos grupos, não foram os marginais, os deslocados, os excluídos, não foram os gays.

 

O tempo vai passando e o que era normal, o tradicional, vai se modificando, misturando, agregando, transgredindo, avançando, etc. Faz parte da nossa história e da nossa cultura. O pastor Sérgio podia sair um pouco do mundo encantado em que vive e dar só uma voltinha no mundo real. Só um pouco mesmo. Ele ia perceber que esta família tradicional que ele tanto defende não faz parte da realidade da maioria das pessoas.

 

Muitas mães trabalham como ‘pais’, por exemplo. E se um dia a ‘mãe solteira’ era sinônimo de vergonha para pessoas como o pastor e seus discípulos do “mundo da Alice”, hoje estas mulheres começam a ser respeitadas pela força que tiveram ao criar os filhos sem a figura de um pai em casa.

 

Se a criança perde alguma coisa com isso? Não. Nem uma criança se torna ‘imperfeita’ ou menos capaz porque a família dela é diferente do colega que teve um pai em casa (algumas vezes um pai ausente, ou um pai alcoólatra, que mais atrapalha do que ajuda, mesmo seguindo o modelo tradicional).

 

Ao ensinar para uma criança, mesmo àquela que é órfã, qual o modelo certo (na visão delimitada pelo tradicional) de se constituir uma família, o final da história é evidente e a rejeição é consequência. Mas tirado este conceito pré-estabelecido, é de suspeitar que a criança prefira ter um lar sem nem se dar conta de toda esta discussão sobre seus possíveis tutores.

 

Se os colegas rirem dele? É porque também foram contaminados com aqueles mesmo valores. É exatamente esta mentalidade que a Comissão de Direitos Humanos – na qual se refere o vereador do PSB, quer destruir, despedaçar e jogar na lata de lixo da nossa história cheia de dogmas que nos separam, que nos atrapalham e ofendem aqueles que já tem tantos problemas para enfrentar.

 

Não que as religiões não devam ter suas próprias verdades. A ilusão faz parte, mesmo. Mas sempre que subir na tribuna, por favor pastor, desça para a terra.

 

*Jornalista.

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DISCURSO DO PASTOR SÉRGIO (PSB) (DIA 15 DE SETEMBRO)

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