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Sobre hábitos e territórios desconhecidos

PROMESSAS – O psicólogo Bruno Pael fala sobre os hábitos, rotina e vícios

HÁBITOS 1

VÍCIO – Presente na vida de milhares de pessoas, fumar é um dos hábitos mais difíceis de combater

 

 

Por Wender Carbonari

 

Além das festas de réveillon, uma das características marcantes deste período do ano são as promessas para o ano seguinte. É justamente nesta época que fumantes prometem tentar parar de fumar e sedentários planejam começar a fazes exercícios físicos. Se por um lado o começo de um novo ano pode servir de estímulo para corrigir maus hábitos, por outro, é possível interpretar tal espera com uma desculpa confortável.

 

Hábitos são arraigados com facilidade porque o prazer vicia. A sensação de que aquele seu comportamento é o mais adequado, fácil, rápido e eficaz, faz com que as pessoas repitam comportamentos. Mudar envolve esforço e readaptação.

 

 

Em entrevista, o psicólogo Bruno Pael  fala sobre este dilema do comportamento humano. Para ele, é perigoso se apoiar em artifícios que tendem para a acomodação, já que “programar mudanças para o próximo ano também é um hábito”. Então, para aqueles que desejam mudar algumas “manias” que julgam prejudiciais, é preciso, primeiro, entender como são construídos estes hábitos em nosso dia-a-dia e a relação destes com a rotina e o desenvolvimento de vícios.

 

O que é o hábito e qual a relação com a rotina?

Pael: Hábito é um comportamento aprendido. Como todo comportamento, envolve um estímulo externo e uma recompensa para sua criação e manutenção. Um hábito instalado por muito tempo envolve certa dificuldade em mudá-lo, sendo necessária boa quantia de esforço para que este seja modificado ou excluído de seu repertório de comportamento.

A rotina, para mim, é sinônimo de acomodação. Considerando que todo ser vivo tende a economizar energia, a rotina acaba se tornando a forma mais fácil para que isso aconteça. Passamos a fazer sempre a mesma coisa pelo conforto que isso nos traz. Qualquer mudança, seja de comportamento ou de atividade no dia-a-dia, envolve lançar-se em território desconhecido e isso só acontece quando a recompensa advinda da mudança da rotina é maior que a da sua manutenção.

 

A passagem do ano velho para o ano novo pode ser fator de motivação para a mudança de hábitos?

Pael: Estamos constantemente buscando realizar mudanças em nossas vidas. Porém, o comodismo nos faz procrastinar, protelar essas mudanças. Porque esperar o próximo ano, o próximo mês ou a próxima segunda-feira? Temos o hábito de deixar mudanças para depois e sempre encontramos muitas desculpas para isso.

A mudança vem da necessidade e quando há necessidade, não esperamos outro ano, apenas mudamos o quanto antes. Sendo assim, fazer programas para o próximo ano é um excelente artifício para dormirmos com a consciência tranquila enquanto não tomamos a atitude de realizar as mudanças que queremos em nossas vidas.

 

Qual a relação do hábito com o vício?

Pael: Eu considero o hábito e o vício como duas coisas muito semelhantes. Observe o seguinte: quando um comportamento seu é visto por você como recompensador, áreas do seu cérebro estão trabalhando e te fazendo sentir isso. Você sente que vale a pena, que é bom, ou que dá prazer. A sensação boa nos traz a vontade de senti-la novamente. Assim nasce o hábito, assim nasce o vício. Entretanto, eu acredito que há diferenças entre os dois. Quando o hábito deixa de ser recompensador e prazeroso, tendemos a eliminá-lo. Com o vício, nem sempre é assim. Às vezes, mesmo depois de não ser mais prazeroso e recompensador, mesmo sendo até aversivo, o vício mantém sua força.

 

(Original publicado na edição do dia 31 de dezembro de 2014 no jornal DiárioMS – Foto de Eliel Oliveira)

 

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