Os novos tempos da UFGD (Livre)
Por Wender Carbonari*
Na segunda-feira passada (19/10), os estudantes matriculados na UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados) retornaram às aulas após quatro meses de greve dos professores e técnicos-administrativos da Universidade. No campus, os blocos continuam nos mesmos lugares, cada tijolo, cada árvore e cada banco. Mesmo assim, a UFGD parece diferente do que era há alguns meses e pouco ou nada disso tem qualquer relação com a maior greve enfrentada nesta curta história da Federal douradense.
Faço questão de recordar que, pouco antes do início da greve, em maio deste ano, tomaram posse da reitoria os representantes do “Movimento UFGD Livre”, vencendo as eleições com argumentos sustentados na base de clichês em favor da despolitização do ensino e com apoio de setores da sociedade que compartilham das mesmas opiniões carregadas de intenções que não foram colocadas em evidência.
Mas eis que a nova gestão começa a “mostrar cara” por meio de suas primeiras ações envolvendo os alunos da Universidade. Estes não podem mais permanecer no interior das salas quando não estiverem em aula. A ordem – imposta de cima para baixo e informada através de folhas A4 coladas nas portas – é que as salas fiquem trancadas e com aparelhos de ar-condicionado desligados para evitar que os alunos danifiquem os objetos. Uma das primeiras ações da gestão do grupo que exaltava a “liberdade” enquanto característica principal, vem para justamente privar os alunos desta condição.
Tem mais. As mudanças na forma de organização do ENEPEX (Encontro de Ensino Pesquisa e Extensão) não parecem levar em consideração as condições financeiras dos estudantes. Neste ano, quem optou por participar do evento foi obrigado a pagar uma taxa de 20 reais. Ainda assim, o pior estava por vir. Ao contrário do que ocorreu no ano passado, a imensa maioria dos participantes não puderam apresentar seus trabalhos oralmente, sendo todos encaminhados para uma “apresentação de banners” que acontecerá amanhã (22/10).
O resultado disso é que os estudantes acabam perdendo a oportunidade de viver a experiência de apresentar suas pesquisas em um evento oficial, ao mesmo que força a impressão massiva de banners que poucas pessoas vão ler, quase nada vai acrescentar em questão de experiência acadêmica, mas que deve elevar o lucro de algumas gráficas da cidade.
Vai vê que é essa a tônica da nova gestão. Veremos.
*Aluno do Curso de Ciências Sociais da UFGD/Jornalista
Praças e parques de Dourados pedem socorro
(Original publicado no jornal DiárioMS, edição do dia 19 de janeiro de 2015 – Fotos de Eliel Oliveira)
Por Wender Carbonari
As poucas áreas destinadas ao lazer da população em Dourados estão em completo estado de abandono, no que diz respeito à limpeza e manutenção de equipamentos. Dos quatro lugares percorridos, apenas um apresenta boas condições de uso. Já as outras três áreas, estão precisando urgentemente de alguma atenção da prefeitura. Douradenses de diferentes bairros, entrevistados pela equipe de reportagem, reclamaram da situação de parques e praças da cidade.
Há anos nesta situação, moradores de Dourados percebem que a cidade possui bem mais que apenas quatro áreas de lazer com problemas estruturais. Porém, a Praça da Juventude se destaca. A área fica no bairro Parque das Nações I. Ao chegar ao local, o DiárioMS percebeu que o empreendimento orçado em R$ 1,8 milhão estava completamente depredado, mas, o mais curioso, é que o espaço não foi sequer inaugurado oficialmente.
O agente patrimonial que faz ronda na Praça do Parque das Nações I contou que começou a trabalhar apenas em novembro, quando o ambiente já estava com todas as paredes pichadas e com janelas e portas quebradas. Fios de energia e lâmpadas também foram furtados. A dona de casa Rosângela Pereira de Assis, 33, lembra que “depois que a obra parou, as pessoas começaram a entrar e usar a praça, mesmo antes de terminar sua construção”.
A Praça da Juventude teve as obras iniciadas em 2011 e deveriam ser entregues em 2013. O que antes representava um sonho para os moradores acabou se tornando motivo de preocupação para aspessoas que moram próximas da praça. “Antes a gente estava até feliz por causa da pracinha, mas hoje serve só para dar ‘dor de cabeça’. Os pais se quiserem levar os filhos para brincar ali, têm que ir junto, porque sozinho é muito perigoso”, relata a dona de casa.
Rosângela mora na rua dos fundos da praça inacabada e reclama da falta de segurança e do “problema” que o empreendimento tem causado aos moradores. “Não tem guarda a noite e não é seguro para a vizinhança. Mesmo com a Guarda Municipal passando para fiscalizar”.
PARQUE DO LAGO
O Parque Antenor Martins também apresenta problemasestruturais, principalmente nos banheiros e no parquinho. Guardasmunicipais que trabalham no Parque do Lago relataram as constantes reclamações de usuários da área de lazer.O parquinho, por exemplo, não apresenta condições para as crianças brincarem sem correr risco de se machucarem. O mato alto também é fator de risco para os usuários.
Para se ter uma ideia, o escorregadoré reparado com uma massa de preenchimento de espaços conhecida pela marca “Durepoxi”.No banheiro, os mictórios estão todos entupidos e uma das torneiras só pode ser aberta com a ajuda de um alicate.
TRANSBORDO
Não são apenas as áreas públicas de lazer dos bairros de Dourados que estão precisando de manutenção. Logo na entrada da Praça Antônio Alves Duarte, localizada ao lado do terminal de transbordo, havia uma torneira com vazamento, amarrada por um pedaço de borracha. Os bancos de uma das praças mais antigas da cidade estão quebrados, além das calçadas com buracos e matagal no local onde existia um parquinho.
Maria Aparecida, 40, estava sentada em um dos bancos que ainda estão inteiros quando foi abordada pelo DiárioMS. Ela disse que estava esperando um parente e lamentou o desprezo por um dos locais que para ela deveria ser cartão postal da cidade. “Morei por oito anos em frente a esta praça e quase sempre foi assim, abandonado”, lamenta.
BALTAZAR MARQUES
A Praça Baltazar Marques, localizada numa das esquinas das ruas Joaquim Teixeira Alves com Coronel Ponciano, é outro retrato do desleixo, apesar de que está bem próxima do terminal rodoviário da cidade e na mesma área que abriga o Imam (Instituto do Meio Ambiente) e a Guarda Municipal. O mato tomou conta de tudo e as quadras de esportes, há anos, não apresentam condição alguma de uso. O local deverá abrigar, em breve, a sede da Câmara Municipal.
PARQUE ALVORADA
A única área de lazer visitada que se encontra em bom estado de uso éa praça do Parque Alvorada, inaugurada em 2011. Apesar da grama um pouco alta, a estrutura ainda está conservada, com banheiros com torneiras e mictórios funcionando normalmente. Foram investidos na área que fica ao lado da Escola Municipal Aurora Pedroso de Camargo quase R$ 2 milhões, garantidos por meio de emenda extraordinária no orçamento do Ministério do Turismo, com contrapartida dos governos estadual e municipal.
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Praça da Juventude, Parque das Nações I
Sobre hábitos e territórios desconhecidos
PROMESSAS – O psicólogo Bruno Pael fala sobre os hábitos, rotina e vícios
Por Wender Carbonari
Além das festas de réveillon, uma das características marcantes deste período do ano são as promessas para o ano seguinte. É justamente nesta época que fumantes prometem tentar parar de fumar e sedentários planejam começar a fazes exercícios físicos. Se por um lado o começo de um novo ano pode servir de estímulo para corrigir maus hábitos, por outro, é possível interpretar tal espera com uma desculpa confortável.
Hábitos são arraigados com facilidade porque o prazer vicia. A sensação de que aquele seu comportamento é o mais adequado, fácil, rápido e eficaz, faz com que as pessoas repitam comportamentos. Mudar envolve esforço e readaptação.
Em entrevista, o psicólogo Bruno Pael fala sobre este dilema do comportamento humano. Para ele, é perigoso se apoiar em artifícios que tendem para a acomodação, já que “programar mudanças para o próximo ano também é um hábito”. Então, para aqueles que desejam mudar algumas “manias” que julgam prejudiciais, é preciso, primeiro, entender como são construídos estes hábitos em nosso dia-a-dia e a relação destes com a rotina e o desenvolvimento de vícios.
O que é o hábito e qual a relação com a rotina?
Pael: Hábito é um comportamento aprendido. Como todo comportamento, envolve um estímulo externo e uma recompensa para sua criação e manutenção. Um hábito instalado por muito tempo envolve certa dificuldade em mudá-lo, sendo necessária boa quantia de esforço para que este seja modificado ou excluído de seu repertório de comportamento.
A rotina, para mim, é sinônimo de acomodação. Considerando que todo ser vivo tende a economizar energia, a rotina acaba se tornando a forma mais fácil para que isso aconteça. Passamos a fazer sempre a mesma coisa pelo conforto que isso nos traz. Qualquer mudança, seja de comportamento ou de atividade no dia-a-dia, envolve lançar-se em território desconhecido e isso só acontece quando a recompensa advinda da mudança da rotina é maior que a da sua manutenção.
A passagem do ano velho para o ano novo pode ser fator de motivação para a mudança de hábitos?
Pael: Estamos constantemente buscando realizar mudanças em nossas vidas. Porém, o comodismo nos faz procrastinar, protelar essas mudanças. Porque esperar o próximo ano, o próximo mês ou a próxima segunda-feira? Temos o hábito de deixar mudanças para depois e sempre encontramos muitas desculpas para isso.
A mudança vem da necessidade e quando há necessidade, não esperamos outro ano, apenas mudamos o quanto antes. Sendo assim, fazer programas para o próximo ano é um excelente artifício para dormirmos com a consciência tranquila enquanto não tomamos a atitude de realizar as mudanças que queremos em nossas vidas.
Qual a relação do hábito com o vício?
Pael: Eu considero o hábito e o vício como duas coisas muito semelhantes. Observe o seguinte: quando um comportamento seu é visto por você como recompensador, áreas do seu cérebro estão trabalhando e te fazendo sentir isso. Você sente que vale a pena, que é bom, ou que dá prazer. A sensação boa nos traz a vontade de senti-la novamente. Assim nasce o hábito, assim nasce o vício. Entretanto, eu acredito que há diferenças entre os dois. Quando o hábito deixa de ser recompensador e prazeroso, tendemos a eliminá-lo. Com o vício, nem sempre é assim. Às vezes, mesmo depois de não ser mais prazeroso e recompensador, mesmo sendo até aversivo, o vício mantém sua força.
(Original publicado na edição do dia 31 de dezembro de 2014 no jornal DiárioMS – Foto de Eliel Oliveira)
Sobre tojolos e blocos de cimento
– Então você está me dizendo que não acredita na construção do conhecimento através de um esforço diário e contínuo de memorização intensa de conceitos, fórmulas e modelos?
– Depende do que você entende por conhecimento. Imagine, por exemplo, que cada fragmento de informação sejam tijolos ou blocos de cimento. O que te parece uma montanha de tijolos ou blocos de cimentos armazenados em um espaço amplo, sem nenhuma forma, sem ordenação, sem ligação, sem sentido, sem função?
– Entulho.
– …
Desce pra terra, Pastor
Por Wender Carbonari*
O discurso do vereador de Dourados, Pastor Sérgio (PSB), por mais absurdo que pareça para alguns, coloca em cena um discurso que não deixa de ser, em certa medida, popular. Se por um lado a fala dele deixou muita gente indignada, por outro, representou aqueles que defendem a tal “família tradicional”.
Pegando emprestado as palavras do internauta ‘martinsbnr’, em comentário no site de notícias DouradosNews (link aqui), percebe-se estas contradições. Ele afirma que “Os héteros são obrigados a aguentar tudo”, enquanto “eles [GLS, GLBTS, GLBT, LGBT, entre outras categorias] podem falar o que quiser”. Muito convicto em seus ideais, o internauta conclui:
“Concordo com o vereador: acho que todos tem direito de viver como quiserem, mas as pessoas tem o direito de achar isso anormal e falar que é anormal. Um dia, os normais serão os anormais. Um dia, não. Acho que já estão sendo…”
Apesar de estar concordando com o vereador, suas palavras jogadas na rede não foram tão inúteis assim. Pois sim, as pessoas deveriam ter o direito de viver como quisessem, mas não vivem principalmente por causa da falta de bom senso de pessoas como o próprio vereador no qual ele apoiou no comentário. Assim, notamos que quem sempre bateu na mesa e enfiou guela abaixo valores, verdades e ideias, não foram os pequenos grupos, não foram os marginais, os deslocados, os excluídos, não foram os gays.
O tempo vai passando e o que era normal, o tradicional, vai se modificando, misturando, agregando, transgredindo, avançando, etc. Faz parte da nossa história e da nossa cultura. O pastor Sérgio podia sair um pouco do mundo encantado em que vive e dar só uma voltinha no mundo real. Só um pouco mesmo. Ele ia perceber que esta família tradicional que ele tanto defende não faz parte da realidade da maioria das pessoas.
Muitas mães trabalham como ‘pais’, por exemplo. E se um dia a ‘mãe solteira’ era sinônimo de vergonha para pessoas como o pastor e seus discípulos do “mundo da Alice”, hoje estas mulheres começam a ser respeitadas pela força que tiveram ao criar os filhos sem a figura de um pai em casa.
Se a criança perde alguma coisa com isso? Não. Nem uma criança se torna ‘imperfeita’ ou menos capaz porque a família dela é diferente do colega que teve um pai em casa (algumas vezes um pai ausente, ou um pai alcoólatra, que mais atrapalha do que ajuda, mesmo seguindo o modelo tradicional).
Ao ensinar para uma criança, mesmo àquela que é órfã, qual o modelo certo (na visão delimitada pelo tradicional) de se constituir uma família, o final da história é evidente e a rejeição é consequência. Mas tirado este conceito pré-estabelecido, é de suspeitar que a criança prefira ter um lar sem nem se dar conta de toda esta discussão sobre seus possíveis tutores.
Se os colegas rirem dele? É porque também foram contaminados com aqueles mesmo valores. É exatamente esta mentalidade que a Comissão de Direitos Humanos – na qual se refere o vereador do PSB, quer destruir, despedaçar e jogar na lata de lixo da nossa história cheia de dogmas que nos separam, que nos atrapalham e ofendem aqueles que já tem tantos problemas para enfrentar.
Não que as religiões não devam ter suas próprias verdades. A ilusão faz parte, mesmo. Mas sempre que subir na tribuna, por favor pastor, desça para a terra.
*Jornalista.
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DISCURSO DO PASTOR SÉRGIO (PSB) (DIA 15 DE SETEMBRO)
Gentili, o novo herói do Brasil
Por, Wender Carbonari
“Sério @LasombraRibeiro [Thiago Ribeiro] vamos esquecer isso… Quantas bananas vc quer pra deixar essa história pra lá?”, disse Danilo Gentili – herói de quem adora um programa de TV de ideia rasa – ao redator de seu programa no SBT que o acusou de racismo. Danilo é do tipo bate na mesa para dizer que ‘tudo é do jeito que é, porque sempre foi assim’. Racismo? Pra ele é desculpa de quem se faz coitadinho. Em nome do que ele julga como apenas um tipo de humor, faz piadinhas que ofende a muita gente (não só a Vanessa Camargo), depois coloca na conta da tal liberdade de expressão.
O que consigo pensar com tudo isso é, justamente, coitada da liberdade de expressão. Que está longe de estar completamente efetivada em nosso país, mas que já foi bandeira de luta de muita gente que morreu por esta causa no Brasil. História pro Gentili? É besteira. Mas ele sim tem a liberdade de expor suas opiniões medíocres para milhões. Essa é a liberdade que ele defende. A dele, de falar o que quer e se dane os desdobramentos.
Não podemos nos iludir. Gentili não é apenas um humorista. É um comunicador, uma figura pública e um POLÍTICO. Por que não? As conotações em suas piadas trazem a luz alguns problemas sérios da atualidade. Um deles é o movimento social do “foda-se, eu falo o que quiser”. Esse é o nosso herói que luta pelo direto de humilhar quem ele achar que merece, contando com o apoio de milhões que o admiram pela ‘coragem’ e genialidade no discurso. E viva a liberdade de expressão.
A dele, claro.
Bukowski, Pulp
Acordei deprimido. Fiquei olhando para o teto, as rachaduras do teto. Vi um búfalo saltando alguma coisa. Acho que era eu. Aí vi uma serpente com um rato na boca. O sol aparecia nas frestas da persiana e formava uma suástica em minha barriga. A bunda coçava. Estariam voltando as hemorroidas? O pescoço duro, a boca com gosto de leita talhado.
Levantei-me e fui ao banheiro. Me dava raiva olhar o espelho, mas olhei assim mesmo. Vi depressão e derrota. Bolsas escuras caídas sob os olhos. Olhinhos covardes, os olhos do rato acuado pelo pulo do gato. A pele parecia que nem tentava. Que odiava fazer parte de mim. As sobrancelhas caíam retorcidas, pareciam dementes, dementes pelos de sobrancelhas. Horrível. Uma aparência repugnante. E eu nem estava querendo evacuar. Todo entupido. Fui à privada mijar. Fiz pontaria corretamente, mas saiu de lado e molhou o chão. Tentei mudar a pontaria, mas acabei molhando a tampa da privada, que esquecera de levantar. Puxei um pouco o papel higiênico e passei no lugar. Limpei a tampa. Joguei o papel dentro e dei descarga. Fui até a janela e vi um gato cagando no telhado ao lado. Aí voltei ao banheiro, peguei a escova de dentes, apertei a bisnaga. Saiu demais. Oscilou sobre a escova e caiu na pia. Era verde. Parecia uma lombriga verde. Meti o dedo nela, pus na escova e comecei a escovar. Dentes. Que coisa da porra. Tínhamos de comer. E comer e comer de novo. Éramos todos repugnantes, condenados aos nossos trabalhinhos sujos. Comer e peidar e se coçar e sorrir e festejar nos feriados.
Terminei de escovar os dentes e voltei para a cama. Não me sobravam forças, não estava inspirado. Era um percevejo de pregar, um pedaço de linóleo.
Decidi ficar na cama até meio-dia. Talvez então metade do mundo estivesse morta e ele seria metade menos difícil de enfrentar. Talvez quando eu levantasse de tarde tivesse uma aparência melhor. Uma vez conheci um cara que ficou dias sem defecar. Acabou explodindo. De verdade. A merda saiu voando da barriga.
Aí o telefone tocou. Deixei tocar. Nunca atendia ao telefone na parte da manhã. Tocou cinco vezes e parou. Eu estava sozinho comigo mesmo. E, por mais repugnante que fosse, era melhor que estar com alguém, qualquer um, todos lá fora fazendo seus pequenos truques e piruetas. Puxei as cobertas até o pescoço e esperei.
(Trecho do livro Pulp, de Charles Bukowski, página 70)
Bukowski, no livro “Misto Quente” ou “Ham on rye”
Jimmy sentou ao meu lado. O diretor estava discursando e realmente ia ao fundo daquele velho barril de merda.
– A América é a grande terra das oportunidades, e qualquer homem e mulher que tiver disposição para trabalhar se dará bem na vida…
– Lavador de pratos – eu disse.
– Homem da carrocinha – disse Jimmy.
– Ladrão – eu disse.
– Lixeiro – disse Jimmy.
– Enfermeiro num hospício – eu disse.
– A América é corajosa, a América foi construída por gente de coragem… A nossa sociedade é justa…
– Justa para uns poucos – disse Jimmy
– …uma sociedade correta, e todos aqueles que procuram pelo sonho ao final do arco-íris irão encontrar…
– Um cú preto e cabeludo – sugeri.
Os melhores estudantes receberam seus diplomas primeiro. Foram sendo chamados. Abe Mortenson estava entre eles. Pegou o canudo. Aplaudi.
– Onde ele vai terminar? – perguntou Jimmy.
– Cortador em uma fábrica de peças automotivas manufaturadas. Em algum lugar perto de Gardena, Califórnia.
– Um emprego pra vida toda… – disse Jimmy.
– Uma esposa pra vida toda… – acrescentei.
– Abe nunca será miserável…
– Nem feliz.
– Um homem obediente…
– Um pau-mandado.
– Uma múmia…
– Um covarde.
Bukowski, no livro “Misto Quente” ou “Ham on rye”


















